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LIBERDADE EA FORMAÇÃO DO EDUCADOR

Resumo: O presente trabalho visa apresentar parte dos resultados produzidos pelo aluno, durante o período de agosto de 2010 a julho 2011, no desenvolvimento do seu trabalho de Iniciação Científica, como integrante do grupo de pesquisa Direito à
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   Anais do XVI Encontro de Iniciação Científica eI Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da PUC-Campinas27 e 28 de setembro de 2011ISSN 1982-0178  LIBERDADE E A FORMAÇÃO DO EDUCADOR Henrique R. C. Sperandio Faculdade de DireitoCentro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas   henrique.sperandio@ig.com.br  Samuel Mendonça Programa de Pós-Graduação em EducaçãoCentro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas   samuelm@puc-campinas.edu.br    Resumo: O presente trabalho visa apresentar partedos resultados produzidos pelo aluno, durante o período de agosto de 2010 a julho 2011, nodesenvolvimento do seu trabalho de IniciaçãoCientífica, como integrante do grupo de pesquisaDireito à Educação da Pontifícia UniversidadeCatólica de Campinas. O tema da liberdade foi discutido a partir do pensamento de Kant [5,6,7] eNietzsche [9], colocando-se em relevo a formação doeducador. Foi enfatizada a responsabilidade doeducador por sua própria formação. A concepção deeducação aristocrática foi discutida a partir deMendonça [8], o conceito de liberdade foi discutido a partir da reflexão de Nietzshe [9] e de Kant [5,6,7] ede importantes comentadores e a formação doeducador foi discutida a partir de Freire [4].Identificou-se que a construção do aprendizado pelo próprio educando que se tornará educador pode ser viabilizada a partir de suas próprias motivações equestionamentos se ele perseguir o caminho daautossuperação e da autocrítica, na busca pelaexcelência. Para Kant [5], o esclarecimento é pressuposto para a liberdade que, no entanto, não pode ser obtida sem que os indivíduos deixem acomodidade de se submeter às opiniões dosformadores. Para Nietzshe [9], a liberdade só é possível ao aristocrata que se afasta dos valores dasmassas e se torna capaz de criar sua própria tábuade valores como uma criança que não se cansa de “jogar” a vida e inventar sempre novas regras para nortear sua conduta. Palavras-chave: liberdade, formação, educador    Área do Conhecimento: Filosofia  – Filosofia daEducação 1. INTRODUÇÃO Dentre os desafios da educação, a formaçãodo educador é, seguramente, um dos maisimportantes. Freire [4] já mostrava a suapreocupação com a formação do educador ao criticar o professor descompromissado. Se por um lado aformação se dá no interior da escola, é precisorepensar a estrutura, seja de conteúdo, ou deprocedimentos para este agente de transformação dasociedade; por outro lado, é o educador oresponsável por sua formação, no sentido de quenão se pode pensar a formação sem considerar oprocesso de preparação deste sujeito. Neste sentido,o tema da formação perpassa a distinção do termoprofessor em contraposição a educador, discutidaprincipalmente por Freire [4]. A discussão dapreparação do educador colocou em relevo o temada educação aristocrática; afinal, que educaçãofundamenta a busca de si mesmo como conquista daliberdade?O artigo foi organizado em três momentos, apartir da pergunta: é possível uma educação queconsidere a liberdade como um valor inegociável? Otexto teve como intenção investigar os desafios daformação do educador no contexto da liberdade.Estes desafios apontaram para a concepção deeducação aristocrática, que foi discutida a partir deMendonça [8]. O conceito de liberdade foi discutido apartir da reflexão de Nietzsche [9] e de Kant [5,6 e 7]e de importantes comentadores. A questão daformação do educador foi discutida a partir de Freire[4], com base no desenvolvimento amplo daspotencialidades do sujeito que educa, por meio deuma educação que não se vincule a conceitos pré-determinados. 2. MÉTODO  A metodologia utilizada para esta pesquisa foia qualitativa, através da revisão bibliográfica deNietzsche, Kant e Freire e de alguns de seusinterlocutores, neste sentido citou-se: Almeida,Barrenechea [2], Mendonça [8], Sobrinho [9] eOliveira [10]. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1. Educação Aristocrática como Educação doSolitário O conceito de educação está diretamenteligado às formas de instrumentalização do indivíduopara que possa ser capaz de (i) suprir suas    necessidades, (ii) resguardar-se dos perigosexternos e (ii) trabalhar em sociedade. Este conjuntode instrumentos é chamado por Abbagnano [1] decultura.Para Nietzsche também, educação e culturasão conceitos interligados. Sem um projetoeducativo, a cultura não sobrevive, e por outro lado aeducação depende do apoio da cultura [9]. O fimmais nobre da educação seria gerar gênios, seresque sejam capazes de se educarem a si mesmos,ainda que para isso precisem se posicionar contra aeducação que lhes foi incutida.O educador é precisamente o transmissor dacultura. Qual a contribuição do transmissor noprocesso de perpetuação da cultura? A fim deinstrumentalizar o educador para que não se resolvaem um transmissor de conhecimento,potencializando a sua capacidade de mediação dosaber, e mais, para que ele tenha a dimensão damotivação do questionamento no contexto de suaformação, aponta-se a educação aristocrática comopossibilidade deste caminho de desenvolvimento.Por educação aristocrática entende-se aeducação do indivíduo solitário, o que não quer dizer uma educação individualista, mas, ancorada nadimensão da grande e nobre individualidade. Aeducação aristocrática, neste sentido, remete àautocrítica e à autossuperação, elementosfundamentais do processo de autoeducação. Paraque o educador tenha condições de interferir noprocesso de transmissão da cultura, ele precisa ser preparado para questionar e ser questionado. Deveser um indivíduo que busque a autossuperação e quetenha autocrítica. Pode-se dizer que superaçãopressupõe a atitude de ser protagonista doconhecimento contrapondo-se, porém, não apenas àautoridade divina como também aos conceitos pré-elaborados sempre que não fizerem sentido para oconjunto de conceitos apreendidos pelo educador. Éfundamental que o educador seja um indivíduo queconsiga compreender a relevância do seu papel, oquanto pode influenciar no processo de aprendizadodos que vai educar, sem se permitir igualar àsmassas, sem se conformar em apenas repassar osconteúdos que lhe foram anteriormente ensinados. A concepção de educação aristocrática,segundo Mendonça [8]. é a capacidade do homemse autossuperar e se autocriticar. Com efeito, estaconcepção de educação, que não diz respeito aomodelo educacional, não se limita à autocrítica e àautossuperação. Antes, esta concepção de educaçãosignifica a crítica à educação que nivela oconhecimento na busca da igualdade. Neste sentido,a educação do solitário destaca a diferença comouma de suas principais características. Então, écontra o adormecimento social que a educaçãoaristocrática se insere. Aqui apareceu a necessidade de umaeducação diferenciada para o educador. Para queseja capaz de não aceitar a pressão social de seconformar com o caminho fácil, o pré-estabelecido,ele deve possuir não apenas a coragem para criticar o que está posto como também de criticar a sipróprio, seus valores, e permitir-se até mesmotornar-se um novo homem.Segundo Mendonça [8], a educaçãoaristocrática decorre de uma vida aristocrática que évivida pelo homem que não se permite viver da formacomo vive a massa. O aristocrata tem como tarefa abusca pela excelência e só a ele incumbe tal tarefa.Não aceita os valores instituídos, formula seuspróprios valores mesmo que para isso necessite setornar solitário. Pode-se então dizer que, naeducação aristocrática, tanto o educador como oeducando devem ser livres para escolher seuspróprios caminhos. Mas o que é a liberdade? Comoage quem age livremente? É possível uma educaçãoque considere a liberdade como um valor inegociável? 3.2 - O Conceito de Liberdade3.2.1. Considerações propedêuticas e análisekantiana de liberdade Immanuel Kant (1724-1804) foi um expoentedo Iluminismo, que tratou do tema da educação emdiversas de suas obras. Oliveira [10] ressalta que em Sobre a pedagogia , Kant [7] descreve os diversosestágios da educação passando pela fase dacriança, quando estão presentes váriosprocedimentos que também adotam os animaiscomo, por exemplo, o cuidado. Em seguida, vem adisciplina, pela qual o homem aprende a domar suaanimalidade, não no sentido de aniquilá-la, mas deprepará-lo para que ela não prejudique a sociedade.Seria então a disciplina, uma forma de limitar aliberdade do homem, ou justamente um treinamentopara a liberdade?Em Crítica da Razão Pura , Kant [6] alerta parao fato de que mesmo aquele que aprendeu todos osprincípios de uma determinada teoria filosófica,apesar de ter apreendido bem os conceitos nãoconseguirá responder a um só questionamento queseja contraditório ao que aprendeu, se não adquiriu oconhecimento pela razão, se não passou peloprocesso de crítica durante a aprendizagem. A Crítica da Razão Pura coloca em relevo os limites darazão. Kant, nesta obra, evidencia que as condiçõespara o conhecimento estão no sujeito,especificamente em referência aos conceitos deespaço e de tempo, mas, é a experiência quepermite a crítica da razão. É preciso esclarecer que    este tema é denso e não diz respeito ao foco dopresente trabalho, todavia, não poder-se-ia deixar demencionar o sentido da razão pura como conquistados juízos sintéticos a priori  . Daí a importância de seconferir ao educador uma formação com liberdade,ou seja, uma formação que lhe permita adquirir efetivamente o conhecimento por meio daexperiência.Em O que é o esclarecimento? , Kant [5]aborda a forma como os indivíduos, em geral, abremmão de sua autonomia deixando-se guiar por outros.Parecem se sentir seguros, por não precisarememitir opiniões próprias, atendo-se a pré-conceitosque não ousam questionar. Para Kant, a busca peloesclarecimento seria inescapável no caminho para areconquista da liberdade. Porém, mesmoconseguindo se apoderar do esclarecimento, osindivíduos não tomariam o rumo do esclarecimentoimediatamente após sua libertação já que, por inérciaou mesmo por apego aos valores instituídos,continuariam exigindo dos educadores a proteçãorepresentada pela não necessidade de formular suaprópria opinião. Neste ponto é preciso enfatizar arelevância do papel do educador que, além decontribuir para o esclarecimento, deve incentivar oseducandos a se despirem dos valores dissonantesde seus próprios valores e ousarem construir seuspróprios caminhos. Kant acreditava que a liberdadepoderia ser garantida por um governante esclarecidoque tivesse condições de manter a ordem com agrande vantagem de que a população, ao se sentir livre para pensar e expressar suas próprias opiniões,sentir-se-ia impelida a contribuir mais facilmente comsuas tarefas e obrigações. Oliveira [10] lembra que,em  Antropologia em sentido pragmático , Kant afirmaque um dos elementos que distingue o ser humanodos outros seres é a capacidade de utilizar ashabilidades e conhecimentos dos outros sereshumanos para o seu próprio proveito, conferindo-lhea possibilidade de se tornar prudente. E que tipo deconhecimento ou habilidade disponível, já aprendidopor outro humano, deve ser utilizado? Esta seria justamente a tarefa da formação: gerar elementosque possibilitem ao indivíduo escolher compropriedade os conhecimentos que irá utilizar na suaeducação. Discute-se, a seguir, o tema da liberdadeem Nietzsche e, para isto, utiliza-se da análise deBarrenechea [3] e dos fragmentos do terceiro períododo filósofo do eterno retorno, traduzidos por Sobrinho[9]. 3.2.2. Análise nietzschiana da liberdade  Alguns autores, como Almeida [2], identificamtrês fases na obra de Nietzsche: a primeira, quandoescreveu O Nascimento da Tragédia , publicada em1892, na qual confere um lugar fundamental paraarte e discute a complementariedade entre essênciae aparência, entre a tragédia e o belo; a segunda,quando escreveu Humano, Demasiado Humano ,publicado em 1878, na qual insere a arte em umsegundo plano e procura construir novos valores, ouna linguagem nietzschiana, procura revalorar temascomo arte, ciência, moral, religião e metafísica; efinalmente, o terceiro e último período de sua obraquando escreveu  Aurora e A Gaia Ciência , etrabalhou os conceitos de eterno retorno, vontade depotência, em alusão à constante busca pelaautossuperação e amor fatti  .Segundo Barrenechea [2], Nietzsche nãorelaciona a liberdade com as normas, o castigo ou amoral, mas ao alinhamento com as forças terrestresconforme sua ideia de eterno retorno  –   que paraMendonça [8] sugere a ideia permanência que colocao indivíduo numa postura de amor fatti, ou seja,numa postura de aceitar e querer o destino. O ser livre é aquele que aceita a dinâmica dessas forças,submetendo-se à contínua repetição dos fatos ecriando para eles diferentes significados.Experimenta-se um sentimento de liberdade quandose consegue combinar as forças que estão presentesno ser humano com suas necessidades. O educador que tem a consciência de que deve vivenciar eaceitar o que está pré-definido, sem se esquecer decriar significados novos para o que é inevitávelexperimentar, que possam ser (re) adequados para arealidade social em que vive, será capaz de sedesligar da massificação e se posicionar diferentemente perante os acontecimentos erestrições que lhe são impostas, propondo uma novapostura para seus educandos por meio de novosmétodos e novas tarefas que possam ser maiseficientes para a construção do conhecimento.Nos dias atuais, ainda é possível perceber situações que indicam a manipulação do conceito deliberdade. Na sociedade capitalista, por exemplo, o trabalhador é livre para “escolher” seu emprego, porém não apenas se vê limitado na virtual escolhaem função de seu, muitas vezes, deficiente preparo,como também está sujeito à oscilação da oferta detrabalho. Claramente não tem o poder de escolher esse ou aquele emprego. É óbvio que tal discurso deliberdade interessa à classe dominante que podedispor do trabalhador de acordo com suaconveniência. Tal submissão do trabalhador aosistema vigente guarda relação com sua formação?Quando este trabalhador é o próprio educador, estátambém submetido ao interesse de uma classedominante? Ou, retomando a pergunta do artigo, épossível não abrir mão da liberdade enquanto oeducador exerce seu papel de trabalhador? Épossível atuar nesse papel, o de educador, com livrearbítrio?Nietzsche discute o conceito de livre arbítrioem  Aurora e em  A Gaia Ciência . Conforme lembraBarrenechea [2], no primeiro escrito, trata o termo    como fruto do desejo humano de ser independentede forma a poder controlar o devir enquanto que nosegundo, ressalta o aspecto ficcional da liberdade.Ou seja, ao achar que pode controlar osacontecimentos, o indivíduo acaba por ter a falsaideia de que é o responsável pelo seu caminho, queo que se lhe apresenta é resultado daquilo que quer. Aparece então uma justificativa para a existência do “além” que é press uposto para a afirmação daliberdade humana já que, se dependesseexclusivamente de suas pulsões, o homem nãopoderia ser julgado pelo seu agir. Tendocaracterísticas divinas, o homem poderia ser capazde dominar seus impulsos propiciando oaparecimento das noções de espírito e consciência.No âmbito filológico, segundo Barrenechea [2],Nietzsche defende que qualquer apreciação moralembute uma deturpação dos atos ao sugerir que oindivíduo é capaz de prever os mecanismos quelevam a uma determinada ação e que as normasmorais são universais. As palavras, ou mesmo aação, no entanto, descrevem apenas a forma final deum determinado ato sem descrever os processosque levam à consumação dos atos. Ou seja, aoenxergar uma determinada ação ou ouvir umapalavra não necessariamente se conhece oselementos que levaram à sua manifestação de formaque, frequentemente, não se tem como enxergar amoral por detrás das ações. Esse aspecto faz comque o entendimento do que está por detrás dasações ou do discurso fiquem pouco evidentes. Assimcomo qualquer indivíduo não passa a maior parte dotempo questionando o verdadeiro sentido do que selhe apresenta por palavras ou atitudes, também oformador, ao ser submetido a valores morais, acabainvoluntariamente abrindo mão da liberdade deconstruir sua própria formação. Apesar desse conceito de liberdade parecer utópico, longe dos desafios do dia a dia do educador,Nietzsche sugere como se pode persegui-lo.Segundo Barrenechea [2], em  Assim falouZaratustra ,   Nietzsche utiliza a linguagem artística deforma a não conferir um aspecto definitivo e graveaos concei tos. O percurso de Zaratustra é um “canto de liber  dade”, uma forma de se libertar dos grilhões da tradição. O super-homem (Übermensch    – ou alémdo homem  ) incita à autossuperação enquanto oeterno retorno convida o artista a aceitar o passado,o presente e o futuro retomando a possibilidade dese prender á terra e aos seus impulsos ao invés debuscar/privilegiar o além. Para Nietzsche, liberdademoral é contraditória justamente porque aoconsiderar o homem livre, a tradição o torna naverdade um escravo de suas normas.De acordo com Barrenecha [2], para Nietzschehá três momentos do arbítrio humano perante amoral: submissão à moral (momento do camelo ),rejeição à tradição ( leão ) e criação lúdica ( criança). No momento camelo, o homem se torna submisso,vê-se obrigado a anular seus instintos criadores eidealizar um lugar melhor sem dor ou morte, onde aliberdade seria conquistada e acaba na verdadedesistindo da liberdade ao ter de aceitar os valoresalheios. Com a morte de Deus, o homem estáfinalmente liberto das ficções do além, passando acelebrar o corpo e atribuir novos conceitos aostermos como razão, espírito e inteligência. Surgeassim o momento do leão que é uma fase dedesconstrução. Entretanto, enquanto está envolvidona destruição das amarras não pode criar. Apareceentão o momento criança, no qual o homemindepende do passado e do futuro, vive intensamenteo presente e tem plena liberdade para criar suaspróprias regras e juízos.O educador que age com liberdade, age comoa criança, sem medo de tentar novos caminhos,inventar novas abordagens, perseguir odesconhecido e procura compreender o quedescobre de forma genuína, sem procurar umcaminho apenas para justificar uma verdade pré-concebida. A partir desse ponto, foram utilizados osfragmentos do terceiro período nos quais Nietzsche[9] que, embora não discuta a liberdade paraformação do educador, coloca em relevo a questãodo liberalismo.Nietzsche afirma em Humano DemasiadoHumano que o cansaço, é capaz de tornar iguais um santo e um malfeitor sendo o “caminho mais curto para a igualdade e a fraternidade”  . Afirma emseguida que, no descanso, a liberdade acaba por secompor a elas [9]. Aqui, como em vários outrostrechos, aparece a crítica de Nietzsche à igualdadevista por ele como uma forma de perpetuar aestupidez.Em  Aurora [9] , Nietzsche destaca a existênciade dois tipos de morais: aquela seguida pelosindivíduos que se espelham num paradigma e aoutra daqueles que pretendem, mas se a sociedadeclama, ou melhor, impõe o comportamento padrão, éporque teme o indivíduo forte. Neste sentido, nota-seque a educação aristocrática poderia trazer uma vidamais alegre posto que se trata da educação parapoucos, para os desiguais, para aqueles quepretendem se destacar, que não aceitam a imposiçãode paradigmas, embora essa postura possasignificar mais dor, mais desconforto, sendo portantoa via menos fluida, menos fácil.Nietzsche enfatiza que a ideia de não lesar ooutro não é razoável, pois apenas por existir já seestá lesando alguém. Não se trata de entender alesão ao próximo como pressuposto da liberdade,mas sim de enfatizar a ideia de que, embora muito já    se tenha dito a respeito do “não faça ao outro aquiloque não quer que lhe façam”, não se deve aceitar  esse comando como inquestionável.Em  A Gaia Ciência [9] , Nietzsche lembra que,em qualquer tempo, na concórdia ou na discórdia, oumesmo no aconchego da vida familiar é preciso quehaja uma contraposição para que cresça dentro doser humano, algo autêntico. A liberdade de defender as próprias ideias e convicções assume, então, umimportante papel já que o indivíduo a caminho daautenticidade passa pelo confronto de forças, e talcaminho pressupõe a disposição do indivíduo emnão abrir mão de suas convicções mesmo que paraisso necessite gerar instabilidade ou mal-estar.Nesse sentido, para que seja viabilizada umaeducação que considere a liberdade como um valor inegociável é preciso ter coragem de confrontar, deconviver com o desconforto do debate, do parecer diferente. E Nietzsche incita o homem de espíritolivre a diferenciar-se em  Assim Falou Zaratustra [9].Enfatiza que o clamor pela igualdade traz escondidoas invejas dos fracos pelos mais fortes, aconstatação de que, na verdade, não têm capacidadepara se tornar fortes e por isso os fracos disseminama ideia de que se deve ser igual. Mais uma vezremete à visualização do homem aristocrata, daqueleque se supera a cada instante, e que portanto sediferencia das massas.Em O caso Wagner  [9], Nietzsche traz suaconcepção de liberdade. Lembra que uma vezdefinidos pelas instituições, os padrões levam oindivíduo a aceitar o que está estabelecido comoinquestionável, sem permitir melhorias ou buscar aprimoramento. Para ele, o liberalismo significa animalização gregária . Para Nietzsche, o grau deliberdade de um povo pode ser medido pelo tamanhodo sacrifício que é necessário para se manter por cima. A aquisição de valor, da força, por um povo éfunção da intensidade dos perigos que conseguemcombater, pois se não há perigo a vencer, não épreciso ser forte. Novamente se remete à educaçãoaristocrática, aquela que é capaz de gerar indivíduosfortes, que atuem no sentido da autossuperação.Em Fragmentos Póstumos  – Primavera-Outono 1884 , Nietzsche [9] cita o exemplo de que ohomem que tem força suficiente para manter umafamília tem grande importância, mas se não é capazde se impor tal tarefa, não deveria ter o direito de secasar. De novo, se vê o conceito de liberdaderelacionar-se diretamente com a capacidade de lutado indivíduo, com a vida aristocrática.Procurando se fortalecer para combater oinimigo, o homem tende a se igualar. Mas Nietzschedesmonta o raciocínio ao indagar: qual inimigo? Se omotivo para se igualar é o combate ao inimigo, então,na ausência deste, não é mais preciso caminhar nosentido da igualdade. Em momentos como este, osindivíduos passam então a dar vazão para suaspróprias tendências e vontades, criando seuspróprios modelos através de uma lei individual  , masem seguida aparecem novamente outros filósofos damoral para reestabelecer a ordem através de ummodelo que acreditam ser o de um homem normal.Essa reflexão remete ao entendimento de que oindivíduo deve se comportar com liberdade sem se deixar ludibriar por “pré - conceitos” q ue procuramincutir-lhe a necessidade de um modelo, na verdadedesnecessário, ainda mais em se tratando daconduta do educador no processo de sua formação. 4. CONCLUSÕES Conceituar a expressão formação do educador implica recursividade, pois o educador é aquele queeduca, aquele que forma alguém. A expressãoformação do educador equivale à expressãoformação do formador ou ainda à educação doeducador ou mesmo à educação do formador. Abbagnano [1] explicita que formação se relacionacom o processo de civilização, através dasexpressões da cultura de um povo. O termo cultura éempregado por Kant ora como uma forma pela quala humanidade procura superar sua animalidade oracomo transmissão de conteúdos específicos.Formação se refere, então, ao processo detransmissão de ferramentas que contribuem paraque o homem consiga dominar sua animalidade.Freire [4] diferencia professor de educador.Para ele, o professor foca seu trabalho nas questõestécnicas enquanto o educador é capaz de trazer elementos que possibilitem ao educando umareflexão política. À caracterização de Freire deprofessor e educador, é preciso acrescentar aautocrítica e a autossuperação como elementosnecessários para a formação do educador, pois sema busca de si mesmo, tanto faz se o indivíduo éapenas professor ou mesmo educador, uma vez que,afinal de contas, não deve ser apenas um sujeito quedialoga com o estudante, mas, antes disto, devebuscar dialogar consigo mesmo, buscando o que temde melhor, seu caráter aristocrático. A pergunta , “ é possível uma educação queconsidere a liberdade como um valor inego ciável?” não se esgota em um texto. Entretanto, algumasconsiderações puderam ser sugeridas. O homemque vive como o camelo citado por Nietzsche podeser capaz de transmitir a cultura, de ensinar asferramentas necessárias para se satisfazer enquantovive. Entretanto, para que possa trazer contribuiçõesrelevantes, para que possa criar, melhorar o queaprendeu, terá de ter a coragem de passar por umafase de desconstrução, pelo momento leão, para quepossa ser capaz de criar novos valores, deestabelecer novos juízos, permitir-se trabalhar sob
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